Ah, se fosse possível, quereria eu estar ao sol. Ontem, alguns anos depois, passei a noite a delirar; de cinza e com ar pasmado, não refleti mais sobre o tempo...Hoje, algumas horas passadas, aproveito o tempo sob o brilho do astro, componho frases e até arrisco algumas melodias...Amanhã, num momento qualquer, caminharei com a bengala em prontidão; esperando o tempo me levar, arruinando com minha gaita o silêncio dos pardais, desejando, timidamente, esquecer do futuro, acariciando, melancolicamente, o passado, alinhando as unhas aos riscos do calçadão, tirando da boina moedas mágicas a enfeitiçar os caçulas, proseando com os contemporâneos os mais doces provérbios, bajulando as moças que passam, afinando a viola e a viola tentando arranhar, repousando na rede praiana o corpo exausto de um velho sonhador, ouvindo o balanço ruidoso das águas do atlântico....
Posso sentir a brisa oceânica definhando a pele, descendo doce pela goela, a polpa do açaí; posso ouvir dos cavalos, o galopeio; posso atirar-me ao mar sem que haja arrependimentos, pois, desta vida, senti os mais agradáveis prazeres, escrevi os mais belos poemas, produzi as mais harmoniosas melodias, adentrei os castelos mais longínquos, caminhei ao lado dos mais valentes cavaleiros, debrucei sobre seios aconchegantes, sorri como um verdadeiro artista, cortejei todas as belas donzelas e como num sonho de honras feitas, enchi de cores o mundo a minha volta... Agora, ancorado na ilha do amanhã, tento colorir as fantasias que me cercam de amores, desejos e ilusões... Chego a brincar com o passado, gozar com o futuro... Dizer que posso ser jovem e velho ao mesmo tempo... Quebrando as regras do tempo e encurtando a distância entre os mais diversos pontos da minha felicidade...
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